script async src="https://pagead2.googlesyndication.com/pagead/js/adsbygoogle.js?client=ca-pub-3525825446826650" crossorigin="anonymous"> Crónicas - luso.eu | Jornal de Notícias das Comunidades Portuguesas
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Foto: Nicolae Sena Santos


Há lugares que não se descobrem, reconhecem-se. Bouillon é um deles. Quem desce pelas curvas da estrada que serpenteia as Ardenas belgas sente, ainda antes de avistar os telhados de ardósia, que algo de muito antigo o espera lá em baixo, no fundo do vale, onde o Semois desenha um abraço lento em torno da vila.

O rio não tem pressa. Corre entre as casas como quem conhece de cor cada pedra das margens, cada degrau, cada arco das pontes. As suas águas, de um verde-escuro e manso, devolvem ao céu a imagem invertida das fachadas, das janelas floridas, do velho castelo empoleirado no rochedo. Ao fim da tarde, quando a luz se deita oblíqua sobre a corrente, o Semois parece suster-se por um instante, num acto de pura contemplação, como se também ele quisesse demorar-se a olhar a vila que embala há tantos séculos. Diz-se que ninguém fala alto junto às suas margens. Ninguém o proíbe, simplesmente, ninguém o faz.

Depois há a floresta. Densa, generosa, envolve Bouillon por todos os lados como um manto que muda de cor ao sabor das estações. Na Primavera é um murmúrio de verdes tenros, no Verão, uma abóbada fresca onde o sol só entra às migalhas. Mas é no Outono que as Ardenas revelam o seu segredo mais bem guardado. As faias acendem-se em cobre e âmbar, os carvalhos vestem-se de ocre e de ferrugem, as bétulas deixam cair moedas de ouro sobre os caminhos. Cada encosta torna-se uma paleta que nenhum pintor ousaria inventar. Quem percorre os trilhos que partem da vila, rumo aos miradouros sobre os meandros do rio ou aos bosques que parecem não ter fim, regressa com os sapatos húmidos e os olhos cheios de uma luz que não se esquece.

Lá no alto, sentinela de pedra há quase mil anos, ergue-se o castelo. E com ele ergue-se a memória do filho mais ilustre desta terra, Godofredo de Bouillon.
Foi daqui que partiu, em 1096, à frente de milhares de homens, rumo ao Oriente. Para custear a jornada, empenhou o seu próprio castelo e as suas terras, desprendendo-se de tudo o que tinha. Três anos depois, em Julho de 1099, as muralhas de Jerusalém cederam, e os seus companheiros quiseram coroá-lo rei. Godofredo recusou. Conta a tradição que não quis usar coroa de ouro na cidade onde Cristo usara uma coroa de espinhos. Aceitou apenas o título de Defensor do Santo Sepulcro. Seja qual for o juízo que hoje façamos das Cruzadas, aquele gesto atravessou os séculos intacto, o de um homem que, no auge da glória, escolheu inclinar a cabeça em vez de a cingir.

Talvez seja essa a lição que Bouillon ainda guarda, a de que a verdadeira grandeza não precisa de se anunciar. Está na serenidade do rio, na humildade das folhas que se entregam ao chão sem queixume, na estátua do duque que, junto ao Semois, continua a olhar o vale com a mesma sobriedade de há nove séculos.

Venham a Bouillon. Venham sem pressa, como quem regressa a um lugar que já conhecia sem o saber. Subam ao castelo e deixem que as pedras vos contem a história do duque que recusou a coroa. Desçam depois até ao Semois, percam-se na floresta até deixarem de conseguir contar as cores. Quando partirem, levarão convosco um pouco desta paz antiga e a certeza de que voltarão. Bouillon espera por vós. Como o seu rio sabe esperar.


 



 

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